quinta-feira, 10 de junho de 2010

Como mudar hábitos


por Silvio Carajeleascov

Hábitos nascem de paradigmas, ou seja, de crenças de como você acredita que as coisas funcionam e como você deve viver. Alguns hábitos, porém, são “herdados” socialmente ou são cristalizados a partir de paradigmas já superados – como por exemplo, quando você faz algo porque sempre fez daquele jeito, mesmo que hoje já não pense mais que essa forma é a mais eficiente ou correta.
Um dos piores hábitos do cidadão moderno é “multitarefar”, ou seja, o hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Tem-se a artificial sensação de que se está sendo produtivo, numa ilusão de que estar ocupado é estar produzindo. Esse hábito é, em sua maior parte, herdado socialmente. “Parece que todo mundo faz assim, então deve ser assim que é pra fazer!”.
Alguns estudos já chegaram a comparar o grau de atenção e discernimento de pessoas fazendo muitas coisas ao mesmo tempo com pessoas que fumam maconha! Esses estudos mostram como a capacidade de raciocínio e a atenção focada são prejudicadas quando a pessoa está multitarefando.
A grande ilusão é associar o estado de estar ocupado com importância e produtividade eficaz. O fato de estar ocupado o tempo todo não significa que você esteja produzindo algo com eficácia, muito menos que o que você está fazendo seja realmente importante. A urgência geralmente “empresta” um falso senso de importância e muitas pessoas tendem a acreditar que a tarefa é importante só pelo fato de que ela é urgente.
A produtividade burra é quando a pessoa está sempre ocupada, mas, no final das contas, nada do que ela faz rende frutos concretos, duradouros.
Do ponto de vista da vida bem vivida – a filosofia Carpe Diem que apresento aqui –, desperdiçar seu precioso tempo correndo como um ratinho de laboratório em sua rodinha – ocupado, ocupado, ocupado – mas sem produzir nada concreto de fato é uma das primeiras coisas que você deve aprender a eliminar.
O primeiro passo é aumentar o seu nível de discernimento para com as tarefas que você realiza. Reflita seriamente sobre a real importância de tudo em que você investe seu tempo. É claro que há sempre o tempo certo para descontração, descanso, lazer, mas no período em que você “deve” ser produtivo, é essencial se questionar sobre a real importância de cada tarefa. A partir daí, comece a priorizar só o que tem sentido de um ponto de vista mais amplo.
O segundo passo é dar um basta no impulso de querer fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Um dos maiores aprendizados que tive ao começar a escrever foi que, ao tentar fazer muitas coisas ao mesmo tempo (escrever mais de um livro, mais de um artigo ao mesmo tempo), eu levava mais tempo para terminar ambos do que se escrevesse um, terminasse, começasse o outro e terminasse. Se cada livro leva seis meses para ser escrito, ao trabalhar em dois livros ao mesmo tempo, eu não terminaria o primeiro antes de um ano. Além disso, a falta de foco acaba fazendo com que os seis meses para cada um se estendam para oito ou dez meses. Ou seja, ao tentar ser “mais produtiva”, eu acabava demorando muito mais.
Ao me dar conta desse fato, comecei a perceber que o mesmo mecanismo funciona com todas as outras atividades. Ao fazer uma coisa de cada vez, é possível dar o máximo de si para fazer tudo bem feito e rapidamente, ao passo que, ao tentar balancear um monte de atividades, nenhuma delas recebe 100% de atenção e todas demoram mais tempo para serem completadas – resultando, ainda, em qualidade mais baixa.
A percepção geral é de que fazer uma coisa de cada vez é impossível, mas essa é uma percepção falsa. Se você tem cinco coisas para fazer amanhã, fazer uma de cada vez ou todas ao mesmo tempo é apenas uma questão de organização, não? Essas cinco atividades precisarão estar completadas no final do dia, ponto final, como você se organiza é problema seu.
A tendência para multitarefar vem do desespero emprestado da urgência embutida em certas atividades – algumas das quais, se você pensar bem, você nem precisaria fazer.
Em ambientes profissionais, tal mudança é mais difícil do que para pessoas que trabalham por conta, mas mesmo assim é possível. Na maioria dos casos, o profissional recebe um conjunto de responsabilidades e atividade que devem ser completadas, a forma como o profissional organiza a execução dessas atividades geralmente não é algo que costuma ser observado. Com relação à irrelevância de certas responsabilidades, mostrar serviço sugerindo melhorias e eliminação de desperdício nunca é uma má idéia, se feito da forma correta – chegar para um superior e dizer: “Ei, eu acho que isso aqui é inútil, não vou mais fazer”, não dá bons resultados, evidentemente!
Do ponto de vista da vida Carpe Diem que proponho, a minha dica real é fazer de tudo para escapar do mundo corporativo e ser dono do próprio nariz, mas se isso não é possível para você, aprender a se assertivo pode ajudar muito. Assertividade é a capacidade de se colocar firme e decididamente numa situação, dizer o que tem que ser dito e obter resultados positivos sem queimar seu filme.
A postura ideal, tanto na vida pessoal quanto profissional, é trazer os hábitos para a mente consciente e refletir sobre eles, pensar sobre sua importância, lógica, necessidade e efeito em sua produtividade.
Se você conclui que o hábito é irrelevante, não faz sentido, não é necessário para você e prejudica sua produtividade, procure desenvolver outro que o substitua. Tentar eliminar hábitos muitas vezes não funciona. Como o processo é inconsciente, precisamos, de alguma forma, preencher aquele “vazio” que fica quando se pára de fazer algo de uma forma específica. É mais fácil e mais produtivo substituir o hábito negativo por um positivo.
A ciência diz que o cérebro leva 30 dias para internalizar um novo hábito, ou seja, para que a nova forma de fazer algo se torne automática, inconsciente. Isso exige disciplina, foco e força de vontade, mas passado esse período de internalização, o novo hábito se torna parte de sua natureza. O desenvolvimento de uma personalidade excelente, extraordinária e produtiva passa justamente por esse caminho: aprender e internalizar novos hábitos para que você se torne naturalmente eficaz.